165ª Venda dos Hospices de Beaune, na Borgonha

* Christine Ranunkel, de Paris A Borgonha, região francesa reputada pelos vinhos, fez seu balanço e encerrou o ano de 2025 em grande estilo. A safra de 2025 foi mesmo promissora! Mas foi a tradicional Venda dos Hospices de Beaune, de renome internacional, que se destacou como o grande acontecimento do ano. Se Dijon continua sendo a capital histórica do Ducado da Borgonha, Beaune afirma-se como a capital dos vinhedos borgonheses. Sua reputação deve-se, em parte, aos seus Hospices, construídos no século XV. Um local notável, com seus telhados de telhas vitrificadas, que ainda hoje pode ser visitado como um museu. Na época, tratava-se de construir um hospital para os doentes e indigentes da região, que eram cuidados e assistidos por religiosas dedicadas.Esses Hospices refletem a generosidade borgonhesa e, desde então, famílias passaram a legar seus bens aos Hospices de Beaune e à Borgonha — bens que frequentemente se materializavam em vinhedos! Assim, ao longo dos anos, os Hospices reuniram um extraordinário patrimônio vitivinícola composto por cerca de sessenta hectares das mais prestigiosas denominações da região, em sua maioria Premiers Crus e Grands Crus. Os quatro departamentos da Borgonha participam dessa ação e, mais recentemente, Chablis, situada no departamento de Yonne, juntou-se a essa “obra de caridade”. Muito recentemente, Vézelay ofereceu uma parcela familiar que será plantada nos próximos meses! É aqui que chegamos à generosidade dos participantes dessa grande venda de vinhos com caráter único: desde 1945, um lote particularmente atrativo, chamado “Pièce des Présidents” ou “Pièce de Charité”, é vendido em benefício de obras beneficentes — começando pelo novo hospital de Beaune, mas também apoiando outras iniciativas escolhidas por um júri. Este ano, duas instituições foram contempladas: uma dedicada ao acompanhamento de crianças com deficiência e outra, o hospital pediátrico Robert-Debré, para o desenvolvimento de tecnologias inteligentes a serviço das crianças. Para essa operação, os Hospices contam com um parceiro especialmente engajado: a casa de leilões Sotheby’s que, na pessoa de sua Diretora-Geral, Marie-Anne Ginoux, desempenha um papel notável ao percorrer o mundo promovendo degustações dos vinhos dos Hospices: de Abu Dhabi a Cidade do México, de São Paulo a Jacarta, Madri e Bangcoc, Estocolmo, Mônaco, Taipé, Chicago e muitos outros destinos… Numerosos profissionais participam, dando seus lances por telefone ou presencialmente na sala. De fato, o mercado do vinho é impulsionado por “colecionadores” ansiosos para degustar e apreciar os maiores crus, que às vezes adquirem com o ardor de um jogador… Neste ano, os Hospices ofereceram 52 cuvées distribuídas em 539 barricas colocadas à venda, sendo 428 de vinho tinto e 110 de branco.Vale lembrar que uma “pièce” na Borgonha corresponde a 228 litros, ou seja, cerca de 300 garrafas. É preciso destacar a chegada da 52ª cuvée: um Clos de Vougeot Grand Cru, cuvée François Faiveley. Foi um “Pommard Premier Cru, Les Rugiens” que foi escolhido como “pièce de charité”. O lote obteve um sucesso retumbante, contribuindo para posicionar esta 165ª Venda dos Hospices como a terceira mais importante de sua história! Seu comprador, após uma disputa acirrada entre numerosos interessados — tanto presente em Beaune quanto online — é de nacionalidade chinesa. Segundo a Sotheby’s, fortemente envolvida no sucesso da venda, o valor total alcançou 18.754.670 euros, incluindo os 400.000 euros arrecadados pela Pièce des Présidents (ou de Charité) em apenas… 6 horas e 30 minutos de leilão! Um legítimo motivo de orgulho para Ludivine Griveau, administradora dos vinhedos dos Hospices de Beaune há cerca de dez anos, que hoje cobrem mais de 60 hectares, dos quais 80% classificados como Grands e Premiers Crus. O conjunto é agora certificado em viticultura orgânica. Durante a coletiva de imprensa organizada na Sotheby’s algumas semanas antes da venda, ela recordou que sua profissão é, antes de tudo, um “trabalho de observação”, e relatou detalhadamente as “aventuras” vividas ao longo do ano e do ciclo da videira, devido aos caprichos e imprevistos climáticos. Explicou como, com sua equipe, tomou decisões específicas, sabendo que é necessário personalizar os cuidados, parcela por parcela — e até mais! O público escuta, atento, como se acompanhasse uma verdadeira epopeia… Falando em parcelas, 2025 celebrou os “10 anos da inscrição dos Climats do Vinhedo da Borgonha na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO”. Mas o que é um “climat” na Borgonha? Tipicamente borgonhês, o termo designa uma parcela de vinha, precisamente delimitada e nomeada, muitas vezes há séculos — estamos no coração da tradição! Curiosamente, foram necessários 2.000 anos para criar essa exceção mundial. O resultado é um vinhedo extremamente fragmentado e paisagens notáveis. Como resume Gilles de Larouzière, presidente da associação que zela por sua proteção: “Na Borgonha, o vinho é uma busca estética, artística e espiritual!” Voltemos a Beaune, cheia de vida e com espírito festivo durante o fim de semana da Venda dos Hospices. Enquanto o leilão acontece de forma concentrada, um grande telão é instalado do lado de fora para permitir que o público acompanhe os lances; muitas pessoas se reúnem ali, frequentemente com uma taça na mão, pois durante o fim de semana da venda a festa toma conta de toda a cidade! Anotem desde já na agenda: a próxima é em novembro vindouro! Foto (divulgação): A jornalista Chris Ranunkel no célebre vinhedo de Beaune, na véspera da vindima * Jornalista francesa, membro e presidente de honra da APE - Association de la Presse Étrangère/Associação da Imprensa Estrangeira da França.

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