Humberto Miranda: o homem que fez o samba circular
Contar a história do samba-rock é falar de música, dança, identidade e resistência. Mas é também falar daqueles que, muitas vezes longe da luz principal dos palcos, fizeram a música chegar ao público.
Existem artistas que compõem. Existem aqueles que cantam. Existem os que dançam e transformam uma canção em movimento. E existem pessoas que criam os encontros para que tudo isso aconteça.
Humberto Miranda pertence a essa última categoria.
Sua importância para a música brasileira não pode ser compreendida apenas pelos cargos que ocupou ou pelas casas de espetáculo por onde passou. É preciso observar os caminhos que ajudou a abrir, os artistas que aproximou do público, os palcos que ajudou a consolidar e, principalmente, sua capacidade de perceber a força de manifestações culturais que muitas vezes já pulsavam intensamente nas periferias antes de receberem o devido reconhecimento dos grandes espaços.
Nos anos 1990, período decisivo para a explosão do pagode, Humberto esteve diretamente ligado à movimentação do samba em São Paulo. Foi responsável pelo projeto Samba Dá Samba, realizado no tradicional Bar Avenida, em Pinheiros. A iniciativa levou o samba a uma importante região da cidade, originou coletâneas, abriu oportunidades para artistas e ajudou a construir uma ponte entre diferentes públicos e territórios. A própria experiência é apontada como uma das sementes que contribuíram para o surgimento do Carioca Club, espaço que se tornaria referência do samba paulistano.
E ali Humberto Miranda permaneceria por décadas.
Foram aproximadamente 32 anos de atuação no Carioca Club, somados à sua presença em espaços como Bar Avenida, Mary Pop, Santana Hall e Favela. Sua trajetória mistura produção, curadoria, direção artística, operação de áudio, comunicação e aquilo que talvez seja mais difícil de colocar em uma ficha profissional: a sensibilidade para entender o que o público queria ouvir e o que a cultura precisava mostrar.
Essa caminhada o colocou próximo de diferentes gerações do samba. Registros de sua trajetória relacionam seu trabalho a grandes nomes como Fundo de Quintal, Almir Guineto e Zeca Pagodinho, entre tantos outros personagens que ajudaram a construir a extraordinária expansão do samba e do pagode brasileiro.
Mas falar de Humberto Miranda apenas pelo pagode seria limitar uma trajetória muito maior.
Sua história também dialoga profundamente com a black music, com os bailes paulistanos e com o samba-rock — essa criação cultural que encontrou em São Paulo um território fértil, misturando samba, soul, balanço, suingue, dança e identidade negra urbana.
O samba-rock nunca dependeu apenas do disco.
Ele precisou do salão.
Precisou do DJ.
Precisou dos dançarinos.
Precisou dos bailes.
Precisou das casas.
Precisou dos produtores.
Precisou das pessoas capazes de colocar uma música no momento certo e permitir que milhares de corpos descobrissem que aquela música também podia ser dançada de uma maneira nova.
É dentro dessa engrenagem cultural que a trajetória de Humberto Miranda ganha ainda mais importância.
Sua própria caminhada mantém viva essa conexão com o samba-rock, inclusive por meio de projetos, eventos e da identidade Eu Soul Samba Rock, reafirmando uma relação que atravessa gerações.
Da rádio ao palco, do palco ao salão, do salão para os discos e dos discos novamente para as ruas, Humberto participou de uma cadeia cultural que ajudou a música negra brasileira a circular.
E talvez a palavra fundamental seja justamente esta:
circulação.
Porque cultura que não circula corre o risco de desaparecer.
Uma música precisa encontrar um ouvido.
Um artista precisa encontrar um palco.
Um dançarino precisa encontrar um salão.
Um movimento precisa encontrar pessoas dispostas a acreditar nele.
Humberto Miranda foi, durante décadas, uma dessas pontes.
Sua passagem pela comunicação, pelas rádios, televisões, gravadoras e casas de espetáculo permitiu que a experiência acumulada nos bastidores fosse transformada em oportunidades. Mais recentemente, essa mesma lógica reaparece na criação do selo Samba em Movimento, parceria com a Kuarup destinada a valorizar o samba contemporâneo e abrir caminhos para novos talentos.
Há uma simbologia bonita nisso.
Depois de ajudar a divulgar artistas e movimentos durante décadas, Humberto continua olhando para quem está chegando.
É assim que uma cultura permanece viva.
Os mais antigos não guardam o conhecimento para si. Eles entregam a chave para a geração seguinte.
Este livro, Samba Rock — A Origem, procura justamente seguir essas pegadas.
Porque a história do samba-rock não pertence a uma única pessoa, a uma única casa, a um único bairro ou a uma única geração. Ela foi construída coletivamente por músicos, DJs, produtores, radialistas, pesquisadores, dançarinos, promotores de bailes, empresários, comunidades negras e milhares de pessoas anônimas que fizeram dos salões de São Paulo verdadeiros territórios de criação cultural.
Humberto Miranda faz parte dessa memória.
Não necessariamente como aquele que estava sempre no centro do palco, mas como alguém que ajudou a garantir que o palco existisse, a música tocasse e o público estivesse lá para ouvi-la e dançá-la.
E existem pessoas cuja contribuição à história é exatamente essa:
quando todos estão olhando para o artista que aparece sob a luz, elas estão nos bastidores garantindo que a luz permaneça acesa.
Por isso, ao abrir estas páginas e retornar às origens, aos bailes, aos personagens e às diferentes gerações do samba-rock, reconhecer Humberto Miranda é também reconhecer uma categoria inteira de homens e mulheres que dedicaram suas vidas a fazer a cultura negra brasileira circular.
O samba virou pagode.
O samba encontrou o soul.
O samba ganhou balanço.
O balanço virou dança.
A dança ocupou os salões.
E o salão virou história.
Essa história continua em movimento.

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